{"id":6398,"date":"2014-10-09T16:05:00","date_gmt":"2014-10-09T16:05:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.espacocatavento.com.br\/?p=6398"},"modified":"2014-10-09T16:05:00","modified_gmt":"2014-10-09T16:05:00","slug":"espaco-aberto-fundamental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/espaco-aberto-fundamental\/","title":{"rendered":"Espa\u00e7o Aberto Fundamental"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Na segunda-feira, 22\/09, tivemos o 3o Espa\u00e7o Aberto em 2014 para os alunos do Ensino Fundamental<span style=\"font-weight: inherit; font-style: inherit;\">\u00a0das Turmas 1A, 1B, 1C, 2A &amp; 2B.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-weight: inherit; font-style: inherit;\">Na Reuni\u00e3o Pedag\u00f3gica, os respons\u00e1veis\u00a0receberam as atividades avaliadas e boletins do 2o Per\u00edodo dos alunos, al\u00e9m de terem participado de debates sobre temas da atualidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agradecemos a presen\u00e7a das fam\u00edlias e compartilhamos com todos os textos que foram usados como ponto de partida das reflex\u00f5es e discuss\u00f5es:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong>OS PERIGOS DO MUNDO<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um estudo realizado por um canal de TV a cabo voltado para o p\u00fablico infantil analisou 1.450 fam\u00edlias com filhos de at\u00e9 10 anos, com o objetivo de compreender os h\u00e1bitos de consumo e entretenimento das crian\u00e7as brasileiras e apontou dados interessantes. Segundo a pesquisa, as duas maiores preocupa\u00e7\u00f5es dos pais referem-se \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de seus filhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falando de seguran\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 novidade que esta seja uma das nossas maiores inquieta\u00e7\u00f5es. Mas mesmo que a gente queira proteger os filhos a todo o custo, \u00e9 legal pensar nos reflexos dessa redoma na vida de nossas crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa pode nos dar pistas interessantes sobre isso. Por exemplo: crian\u00e7as de hoje passam mais tempo dentro de casa em compara\u00e7\u00e3o a crian\u00e7as de gera\u00e7\u00f5es anteriores (como a de seus pais); o n\u00famero de videogames, DVDs e a quantidade de horas que as crian\u00e7as permanecem em frente \u00e0 TV tamb\u00e9m vem aumentando. Se antigamente a rua era o espa\u00e7o preferido para o lazer da crian\u00e7ada, hoje 80% dos pais preferem que as crian\u00e7as fiquem em casa e, por conta disso, somente 14% das crian\u00e7as brincam na rua, uma diferen\u00e7a enorme frente aos 89% dos pais entrevistados que brincavam na rua quando crian\u00e7as. Setenta e sete por cento dos pais andavam a p\u00e9 quando crian\u00e7as contra 8% da crian\u00e7ada de hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u00e9 f\u00e1cil entender tudo isso j\u00e1 que n\u00f3s vivemos cercados de v\u00e1rios medos e inseguran\u00e7as \u2014 medo de assaltos, de acidentes naturais, de brinquedos perigosos, de atropelamentos, de\u00a0<em>bullying<\/em>, de doen\u00e7as, de drogas, etc, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas toda essa prote\u00e7\u00e3o (em parte justificada) tamb\u00e9m pode gerar alguns problemas. Nossas crian\u00e7as podem ser privadas dos pequenos riscos que, quando bem dosados, s\u00e3o \u00f3timos para o amadurecimento. Ficar em casa na companhia dos desenhos animados e dos videogames n\u00e3o pode ser a \u00fanica maneira de conhecer o mundo.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>&#8220;Mas toda essa prote\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode gerar alguns problemas. Nossas crian\u00e7as podem ser privadas dos pequenos riscos que, quando bem dosados, s\u00e3o \u00f3timos para o amadurecimento. Ficar em casa na companhia dos desenhos animados e dos videogames n\u00e3o pode ser a \u00fanica maneira de conhecer o mundo.&#8221;<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vida em casa \u00e9 diferente de andar de bicicleta, de brincar com a vizinhan\u00e7a, de ir ao supermercado com a m\u00e3e aprender sobre os pre\u00e7os, pesos e medidas. De correr no parque e ralar o joelho. Fora de casa \u00e9 poss\u00edvel fazer amigos, conhecer as diferen\u00e7as do pobre e do rico, do bonito e do feio, do grande e do pequeno, do limpo e do sujo. Assim a crian\u00e7a vai desenvolvendo as compet\u00eancias sociais necess\u00e1rias e aumentando as pr\u00f3prias refer\u00eancias, essenciais para a vida futura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas resta a escola, o espa\u00e7o onde a crian\u00e7a pode ser um pouquinho mais \u201clivre\u201d. Por\u00e9m, mesmo esse local est\u00e1 se tornando outra redoma. Ou\u00e7o muitas m\u00e3es afirmando que n\u00e3o colocam seus filhos em escolas onde cada turma n\u00e3o tenha, no m\u00ednimo, tr\u00eas professoras para cuidar das crian\u00e7as, pois isso evitaria acidentes \u2013 como quebrar o bra\u00e7o, por exemplo. Algumas m\u00e3es v\u00e3o mais longe: n\u00e3o levam seus filhos para a escola sem dar-lhes um celular para que elas possam monitor\u00e1-los mais constantemente (segundo a pesquisa, 20% das crian\u00e7as entrevistadas possuem celular). No meu tempo, meus colegas quebravam o bra\u00e7o. E eu, como achava diferente usar gesso, chegava a enfaixar meu bra\u00e7o de vez em quando para me sentir mais ousada.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>&#8220;Mas resta a escola, o espa\u00e7o onde a crian\u00e7a pode ser um pouquinho mais \u201clivre\u201d. Por\u00e9m, mesmo esse local est\u00e1 se tornando outra redoma.&#8221;<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hist\u00f3rias e nostalgias \u00e0 parte, a pesquisa traz tamb\u00e9m um contraponto. Para as crian\u00e7as participantes do estudo, os tr\u00eas desenhos animados eleitos como preferidos s\u00e3o justamente aqueles que tratam de aventuras fora dos muros de casa, que se passam no jardim ou no parque, que falam sobre a coragem e as aventuras de personagens que s\u00e3o livres para explorar o mundo afora. As crian\u00e7as da minha conviv\u00eancia ficam excitad\u00edssimas quando chega a hora de um programa que conta as perip\u00e9cias de tr\u00eas amigos de bairro que se re\u00fanem em um quartinho abandonado e passam por situa\u00e7\u00f5es onde a imagina\u00e7\u00e3o, a fantasia, o medo, os problemas, as solu\u00e7\u00f5es e a imprevisibilidade est\u00e3o presentes. Ser\u00e1 que isso quer dizer alguma coisa?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong><span style=\"color: #333333; text-decoration: underline;\">O PRAZER DA LEITURA<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>(Rubem Alves)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alfabetizar \u00e9 ensinar a ler. A palavra alfabetizar vem de \u201calfabeto\u201c. \u201cAlfabeto\u201c \u00e9 o conjunto das letras de uma l\u00edngua, colocadas numa certa ordem. \u00c9 a mesma coisa que \u201cabeced\u00e1rio\u201c. A palavra \u201calfabeto\u201c \u00e9 formada com as duas primeiras letras do alfabeto grego: \u201calfa\u201c e \u201cbeta\u201c. E \u201cabeced\u00e1rio\u201c, com a jun\u00e7\u00e3o das quatro primeiras letras do nosso alfabeto: \u201ca\u201c, \u201cb\u201c, \u201cc\u201c e \u201cd\u201c. Assim sendo, pensei a possibilidade engra\u00e7ada de que \u201cabecedarizar\u201c, palavra inexistente, pudesse ser sin\u00f4nima de \u201calfabetizar\u201c&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAlfabetizar\u201c, palavra aparentemente inocente, cont\u00e9m uma teoria de como se aprende a ler. Aprende-se a ler aprendendo-se as letras do alfabeto. Primeiro as letras. Depois, juntando-se as letras, as s\u00edlabas. Depois, juntando-se as s\u00edlabas, aparecem as palavras&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim era. Lembro-me da crian\u00e7ada repetindo em coro, sob a reg\u00eancia da professora: \u201cbe a ba; be e be; be i bi; be o bo; be u bu\u201c&#8230; Estou olhando para um cart\u00e3o postal, miniatura de um dos cartazes que antigamente se usavam como tema de reda\u00e7\u00e3o: uma menina cacheada, deitada de bru\u00e7os sobre um div\u00e3, queixo apoiado na m\u00e3o, tendo \u00e0 sua frente um livro aberto onde se v\u00ea \u201cfa\u201c, \u201cfe\u201c, \u201cfi\u201c, \u201cfo\u201c, \u201cfu\u201c&#8230; (Centro de Refer\u00eancia do Professor, Centro de Mem\u00f3ria, Pra\u00e7a da Liberdade, Belo Horizonte, MG.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u00e9 assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da m\u00fasica deveria se chamar \u201cdorremizar\u201c: aprender o d\u00f3, o r\u00e9, o mi&#8230; Juntam-se as notas e a m\u00fasica aparece! Posso imaginar, ent\u00e3o, uma aula de inicia\u00e7\u00e3o musical em que os alunos ficassem repetindo as notas, sob a reg\u00eancia da professora, na esperan\u00e7a de que, da repeti\u00e7\u00e3o das notas, a m\u00fasica aparecesse&#8230;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>&#8220;Se \u00e9 assim que se ensina a ler, ensinando as letras, imagino que o ensino da m\u00fasica deveria se chamar \u201cdorremizar\u201c: aprender o d\u00f3, o r\u00e9, o mi&#8230; Juntam-se as notas e a m\u00fasica aparece! Posso imaginar, ent\u00e3o, uma aula de inicia\u00e7\u00e3o musical em que os alunos ficassem repetindo as notas, sob a reg\u00eancia da professora, na esperan\u00e7a de que, da repeti\u00e7\u00e3o das notas, a m\u00fasica aparecesse&#8230;&#8221;<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo mundo sabe que n\u00e3o \u00e9 assim que se ensina m\u00fasica. A m\u00e3e pega o nenezinho e o embala, cantando uma can\u00e7\u00e3o de ninar. E o nenezinho entende a can\u00e7\u00e3o. O que o nenezinho ouve \u00e9 a m\u00fasica, e n\u00e3o cada nota, separadamente! E a evid\u00eancia da sua compreens\u00e3o est\u00e1 no fato de que ele se tranquiliza e dorme \u2013 mesmo nada sabendo sobre notas! Eu aprendi a gostar de m\u00fasica cl\u00e1ssica muito antes de saber as notas: minha m\u00e3e as tocava ao piano e elas ficaram gravadas na minha cabe\u00e7a. Somente depois, j\u00e1 fascinado pela m\u00fasica, fui aprender as notas \u2013 porque queria tocar piano. A APRENDIZAGEM DA M\u00daSICA COME\u00c7A COMO PERCEP\u00c7\u00c3O DE UMA TOTALIDADE \u2013 E NUNCA COM O CONHECIMENTO DAS PARTES.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 verdadeiro tamb\u00e9m sobre aprender a ler. Tudo come\u00e7a quando a crian\u00e7a fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. N\u00e3o s\u00e3o as letras, as s\u00edlabas e as palavras que fascinam. \u00c9 a est\u00f3ria. A aprendizagem da leitura come\u00e7a antes da aprendizagem das letras: quando algu\u00e9m l\u00ea e a crian\u00e7a escuta com prazer. \u201cErotizada\u201c \u2013 sim, erotizada! \u2013 pelas del\u00edcias da leitura ouvida, a crian\u00e7a se volta para aqueles sinais misteriosos chamados letras. Deseja decifr\u00e1-los, compreend\u00ea-los \u2013 porque eles s\u00e3o a chave que abre o mundo das del\u00edcias que moram no livro! Deseja autonomia: ser capaz de chegar ao prazer do texto sem precisar da media\u00e7\u00e3o da pessoa que o est\u00e1 lendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro momento as del\u00edcias do texto se encontram na fala do professor. Usando uma sugest\u00e3o de Melanie Klein, o professor, no ato de ler para os seus alunos, \u00e9 o \u201cseio bom\u201c, o mediador que liga o aluno ao prazer do texto. Confesso nunca ter tido prazer algum em aulas de gram\u00e1tica ou de an\u00e1lise sint\u00e1tica. N\u00e3o foi nelas que aprendi as del\u00edcias da literatura. Mas me lembro com alegria das aulas de leitura. Na verdade, n\u00e3o eram aulas. Eram concertos. A professor lia, interpretava o texto, e n\u00f3s ouv\u00edamos extasiados. Ningu\u00e9m falava. Antes de ler Monteiro Lobato, eu o ouvi. E o bom era que n\u00e3o havia provas sobre aquelas aulas. Era prazer puro. Existe uma incompatibilidade total entre a experi\u00eancia prazerosa de leitura \u2013 experi\u00eancia vagabunda! \u2013 e a experi\u00eancia de ler a fim de responder question\u00e1rios de interpreta\u00e7\u00e3o e compreens\u00e3o. Era sempre uma tristeza quando a professora fechava o livro&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vejo, assim, a cena original: a m\u00e3e ou o pai, livro aberto, lendo para o filho&#8230; Essa experi\u00eancia \u00e9 o aperitivo que ficar\u00e1 para sempre guardado na mem\u00f3ria afetiva da crian\u00e7a. Na aus\u00eancia da m\u00e3e ou do pai a crian\u00e7a olhar\u00e1 para o livro com desejo e inveja. Desejo, porque ela quer experimentar as del\u00edcias que est\u00e3o contidas nas palavras. E inveja, porque ela gostaria de ter o saber do pai e da m\u00e3e: eles s\u00e3o aqueles que t\u00eam a chave que abre as portas daquele mundo maravilhoso! Roland Barthes faz uso de uma linda met\u00e1fora po\u00e9tica para descrever o que ele desejava fazer, como professor: maternagem: continuar a fazer aquilo que a m\u00e3e faz. \u00c9 isso mesmo: na escola, o professor dever\u00e1 continuar o processo de leitura afetuosa. Ele l\u00ea: a crian\u00e7a ouve, extasiada! Seduzida, ela pedir\u00e1: \u201cPor favor, me ensine! Eu quero poder entrar no livro por conta pr\u00f3pria&#8230;\u201c<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda aprendizagem come\u00e7a com um pedido. Se n\u00e3o houver o pedido, a aprendizagem n\u00e3o acontecer\u00e1. H\u00e1 aquele velho ditado: \u201c\u00c9 f\u00e1cil levar a \u00e9gua at\u00e9 o meio do ribeir\u00e3o. O dif\u00edcil \u00e9 convencer a \u00e9gua a beber\u201c. Traduzido pela Ad\u00e9lia Prado: \u201cN\u00e3o quero faca nem queijo. Quero \u00e9 fome\u201c. Met\u00e1fora para o professor: cozinheiro, Babette, que serve o aperitivo para que a crian\u00e7a tenha fome e deseje comer o texto&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde se encontra o prazer do texto? Onde se encontra o seu poder de seduzir? Tive a resposta para essa quest\u00e3o acidentalmente, sem que a tivesse procurado. Ele me disse que havia lido um lindo poema de Fernando Pessoa, e citou a primeira frase. Fiquei feliz porque eu tamb\u00e9m amava aquele poema. A\u00ed ele come\u00e7ou a l\u00ea-lo. Estremeci. O poema \u2013 aquele poema que eu amava \u2013 estava horr\u00edvel na sua leitura. As palavras que ele lia eram as palavras certas. Mas alguma coisa estava errada! A m\u00fasica estava errada! Todo texto tem dois elementos: as palavras, com o seu significado. E a m\u00fasica&#8230; Percebi, ent\u00e3o, que todo texto liter\u00e1rio se assemelha \u00e0 m\u00fasica. Uma sonata de Mozart, por exemplo. A sua \u201cletra\u201c est\u00e1 gravada no papel: as notas. Mas assim, escrita no papel, a sonata n\u00e3o existe como experi\u00eancia est\u00e9tica. Est\u00e1 morta. \u00c9 preciso que um int\u00e9rprete d\u00ea vida \u00e0s notas mortas. Martha Argerich, pianista suprema (sua interpreta\u00e7\u00e3o do concerto n. 3 de Rachmaninoff me convenceu da superioridade das mulheres&#8230;) as toca: seus dedos deslizam leves, r\u00e1pidos, vigorosos, vagarosos, suaves, nenhum deslize, nenhum trope\u00e7\u00e3o: estamos possu\u00eddos pela beleza. A mesma partitura, as mesmas notas, nas m\u00e3os de um pianeiro: o toque \u00e9 duro, sem leveza, trope\u00e7\u00f5es, hesita\u00e7\u00f5es, esbarros, erros: \u00e9 o horror, o desejo que o fim chegue logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo texto liter\u00e1rio \u00e9 uma partitura musical. As palavras s\u00e3o as notas. Se aquele que l\u00ea \u00e9 um artista, se ele domina a t\u00e9cnica, se ele surfa sobre as palavras, se ele est\u00e1 possu\u00eddo pelo texto \u2013 a beleza acontece. E o texto se apossa do corpo de quem ouve. Mas se aquele que l\u00ea n\u00e3o domina a t\u00e9cnica, se ele luta com as palavras, se ele n\u00e3o desliza sobre elas \u2013 a leitura n\u00e3o produz prazer: queremos que ela termine logo. Assim, quem ensina a ler, isto \u00e9, aquele que l\u00ea para que seus alunos tenham prazer no texto, tem de ser um artista. S\u00f3 deveria ler aquele que est\u00e1 possu\u00eddo pelo texto que l\u00ea. Por isso eu acho que deveria ser estabelecida em nossas escolas a pr\u00e1tica de \u201cconcertos de leitura\u201c. Se h\u00e1 concertos de m\u00fasica erudita, jazz e MPB \u2013 por que n\u00e3o concertos de leitura? <strong>OUVINDO, OS ALUNOS EXPERIMENTAR\u00c3O OS PRAZERES DO LER. E ACONTECER\u00c1 COM A LEITURA O MESMO QUE ACONTECE COM A M\u00daSICA: DEPOIS DE SER PICADO PELA SUA BELEZA \u00c9 IMPOSS\u00cdVEL ESQUECER. <\/strong>Leitura \u00e9 droga perigosa: vicia&#8230; Se os jovens n\u00e3o gostam de ler, a culpa n\u00e3o \u00e9 deles. Foram for\u00e7ados a aprender tantas coisas sobre os textos &#8211; gram\u00e1tica, usos da part\u00edcula \u201cse\u201c, d\u00edgrafos, encontros consonantais, an\u00e1lise sint\u00e1tica \u2013que n\u00e3o houve tempo para serem iniciados na \u00fanica coisa que importa: a beleza musical do texto liter\u00e1rio: foi-lhes ensinada a anatomia morta do texto e n\u00e3o a sua er\u00f3tica viva. Ler \u00e9 fazer amor com as palavras. E essa transa liter\u00e1ria se inicia antes que as crian\u00e7as saibam os nomes das letras. Sem saber ler elas j\u00e1 s\u00e3o sens\u00edveis \u00e0 beleza. E a miss\u00e3o do professor? Mestre do kama-sutra da leitura&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">APERITIVOS<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1. \u201cAnalfabeta n\u00e3o \u00e9 a pessoa que n\u00e3o sabe ler. \u00c9 a pessoa que, sabendo ler, n\u00e3o gosta de ler.\u201c (Quem foi que disse isso? Acho que foi o M\u00e1rio Quintana).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">2. A menininha de 9 anos me explicou como as crian\u00e7as na sua escola aprendiam a ler: \u201cAqui na Escola da Ponte n\u00e3o aprendemos letras e silabas. S\u00f3 aprendemos totalidades&#8230;\u201c<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3. Os compositores colocam em suas partituras indica\u00e7\u00f5es para orientar o int\u00e9rprete: <em>lento, presto, adagio, alegretto, forte, piano, ralentando.<\/em> Os escritores deveriam fazer o mesmo com seus textos. H\u00e1 textos que devem ser lidos lentamente, expressivamente, tristemente. Outros que exigem leveza, rapidez, riso. O leitor experiente n\u00e3o precisa dessas indica\u00e7\u00f5es. Mas elas poderiam ajudar os principiantes.<\/p>\n<p>(Correio Popular, Caderno C, 19\/07\/2001.)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No 3o Espa\u00e7o Aberto 2014, pais participam de debates sobre temas da atualidade.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":6405,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[20,65],"class_list":["post-6398","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ensino-fundamental","tag-espaco-aberto","tag-textos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6398","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6398"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6398\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}