{"id":5500,"date":"2014-07-03T13:26:04","date_gmt":"2014-07-03T13:26:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.espacocatavento.com.br\/blog\/?p=5500"},"modified":"2014-07-03T13:26:04","modified_gmt":"2014-07-03T13:26:04","slug":"importancia-da-leitura-hackschooling","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/importancia-da-leitura-hackschooling\/","title":{"rendered":"Import\u00e2ncia da leitura &#038; Hackschooling"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No Grupo de Estudo de junho, professores, auxiliares, coordenadores, psicologia e dire\u00e7\u00e3o, no Projeto\u00a0<em><strong>&#8220;Catavento em verso e prosa&#8221;,<\/strong>\u00a0<\/em>aprofundam a import\u00e2ncia da leitura a partir do texto de <strong><em>Neil Gaiman<\/em><\/strong> que segue abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assistiram tamb\u00e9m a uma brilhante palestra de uma crian\u00e7a na Universidade de Nevada, EUA, sobre <strong><em>&#8220;Hackschooling&#8221;.<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>Confiram no link:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rMHXGP8I0XE\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=rMHXGP8I0XE<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b>Neil Gaiman: Por que nosso futuro depende de bibliotecas, de leitura e de sonhar\u00a0acordado<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">pelo\u00a0<a href=\"http:\/\/www.theguardian.com\/books\/2013\/oct\/15\/neil-gaiman-future-libraries-reading-daydreaming\" target=\"_blank\">The Guardian<\/a>, em 15\/10\/2013<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">( &#8230;) Uma vez eu estava em Nova York e ouvi uma palestra sobre a constru\u00e7\u00e3o de pris\u00f5es particulares \u2013 uma ampla ind\u00fastria em crescimento nos Estados Unidos. A ind\u00fastria de pris\u00f5es precisa planejar o seu futuro crescimento \u2013 quantas celas precisar\u00e3o? Quantos prisioneiros teremos daqui 15 anos? E eles descobriram que poderiam prever isso muito facilmente, usando um algoritmo bastante simples, baseado em perguntar a porcentagem de crian\u00e7as entre\u00a010 e 11 anos que n\u00e3o conseguiam ler. E certamente n\u00e3o conseguiam ler por prazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 um pra um: voc\u00ea n\u00e3o pode dizer que uma sociedade alfabetizada n\u00e3o tenha criminalidade. Mas existem correla\u00e7\u00f5es bastante reais. E eu acho que algumas destas correla\u00e7\u00f5es, a mais simples, vem de algo muito simples. Pessoas alfabetizadas leem fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fic\u00e7\u00e3o tem duas utilidades. Primeiramente, \u00e9 uma droga que \u00e9 uma porta para leituras. O desejo de saber o que acontece em seguida, de querer virar a p\u00e1gina, a necessidade de continuar, mesmo que seja dif\u00edcil, porque algu\u00e9m est\u00e1 em perigo e voc\u00ea precisa saber como tudo vai acabar\u2026 Este \u00e9 um desejo muito real. E te for\u00e7a a aprender novos mundos, a pensar novos pensamentos, a continuar. Descobrir que a leitura por si \u00e9 prazerosa. Uma vez que voc\u00ea aprende isso, voc\u00ea est\u00e1 no caminho para ler de tudo. E a leitura \u00e9 a chave. (&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A forma mais simples de ter certeza de que educamos crian\u00e7as alfabetizadas \u00e9 ensin\u00e1-los a ler, e mostrarmos a eles que a leitura \u00e9 uma atividade prazerosa. E isso significa, na sua forma mais simples, encontrar livros que eles gostem, dar a eles acesso a estes livros e deixar que eles os leiam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o acho que exista algo como um livro ruim para crian\u00e7as. Vez e outra se torna moda entre alguns adultos escolher um subconjunto de livros para crian\u00e7as, um g\u00eanero, talvez, ou um autor e declar\u00e1-los livros ruins, livros que as crian\u00e7as devem parar de ler.(&#8230;) Quadrinhos tem sido acusados de promover o analfabetismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tosco. \u00c9 arrogante e \u00e9 burro. N\u00e3o existem autores ruins para crian\u00e7as, que as crian\u00e7as gostem e querem ler e buscar, porque cada crian\u00e7a \u00e9 diferente. Eles podem encontrar as hist\u00f3rias que precisam, e eles levam a si mesmos nas hist\u00f3rias. Uma ideia banal e desgastada n\u00e3o \u00e9 banal nem desgastada para eles. Esta \u00e9 a primeira vez que a crian\u00e7a a encontrou. N\u00e3o desencoraje uma crian\u00e7a de ler porque voc\u00ea acha que o que eles est\u00e3o lendo \u00e9 errado. A fic\u00e7\u00e3o que voc\u00ea n\u00e3o gosta \u00e9 uma rota para outros livros que voc\u00ea pode preferir. E nem todo mundo tem o mesmo gosto que voc\u00ea.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adultos bem intencionados podem facilmente destruir o amor de uma crian\u00e7a pela leitura: parar de ler pra eles o que eles gostam, ou dar a eles livros \u2018chatos mas que valem a pena\u2019 que voc\u00ea gosta, os equivalentes \u201cmelhorados\u201d da literatura Vitoriana do s\u00e9culo XXI. Voc\u00ea acabar\u00e1 com uma gera\u00e7\u00e3o convencida de que ler n\u00e3o \u00e9 legal e pior ainda, desagrad\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Precisamos que nossas crian\u00e7as entrem na escada da leitura: qualquer coisa que eles gostarem de ler ir\u00e1 mov\u00ea-las, degrau por degrau, \u00e0 alfabetiza\u00e7\u00e3o. (&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E a segunda coisa que a fic\u00e7\u00e3o faz \u00e9 construir empatia. Quando voc\u00ea assiste TV ou v\u00ea um filme, voc\u00ea est\u00e1 olhando para coisas acontecendo a outras pessoas. Fic\u00e7\u00e3o de prosa \u00e9 algo que voc\u00ea constr\u00f3i a partir de 26 letras e um punhado de sinais de pontua\u00e7\u00e3o, e voc\u00ea, voc\u00ea sozinho, usando a sua imagina\u00e7\u00e3o, cria um mundo e o povoa e olha atrav\u00e9s dos olhos de outros. Voc\u00ea sente coisas, visita lugares e mundos que voc\u00ea jamais conheceria de outro modo. Voc\u00ea aprende que qualquer outra pessoa l\u00e1 fora \u00e9 um eu, tamb\u00e9m. Voc\u00ea est\u00e1 sendo outra pessoa e quando voc\u00ea volta ao seu pr\u00f3prio mundo, voc\u00ea estar\u00e1 levemente transformado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Empatia \u00e9 uma ferramenta para tornar pessoas em grupos, que nos permite que funcionemos como mais do que indiv\u00edduos obcecados consigo mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 descobrindo algo enquanto l\u00ea que \u00e9 de vital import\u00e2ncia para fazer o seu caminho no mundo. E \u00e9 isto: O mundo n\u00e3o precisa ser assim. As coisas podem ser diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu estive na China em 2007 na primeira conven\u00e7\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e fantasia aprovada pelo partido na hist\u00f3ria da China. E em algum momento eu tomei um alto oficial de lado e perguntei a ele \u201cPor que? A fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica foi reprovada por tanto tempo. Por que isso mudou?\u201d. \u00c9 simples, ele me disse. Os chineses eram brilhantes em fazer coisas se outras pessoas trouxessem os planos para eles. Mas eles n\u00e3o inovavam e n\u00e3o inventavam. Eles n\u00e3o imaginavam. Ent\u00e3o eles mandaram uma delega\u00e7\u00e3o para os Estados Unidos, para a Apple, para a Microsoft, para o Google e perguntaram \u00e0s pessoas de l\u00e1 que estavam inventando seu pr\u00f3prio futuro. E descobriram que todos eles leram fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica quando eram meninos e meninas.\u00a0A fic\u00e7\u00e3o pode te mostrar um outro mundo. Pode te levar para um lugar que voc\u00ea nunca esteve. E uma vez que voc\u00ea tenha visitado outros mundos, como aqueles que comeram a fruta da fada, voc\u00ea pode nunca mais ficar completamente satisfeito com o mundo no qual voc\u00ea cresceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Descontentamento \u00e9 uma coisa boa: pessoas descontentes podem modificar e melhorar o mundo, deix\u00e1-lo melhor, deix\u00e1-lo diferente. E enquanto ainda estamos nesse assunto, eu gostaria de dizer algumas palavras sobre escapismo. Eu ou\u00e7o o termo utilizado por a\u00ed como se fosse uma coisa ruim. Como se fic\u00e7\u00e3o \u201cescapista\u201d fosse um \u00f3pio barato utilizado pelos confusos, pelos tolos e pelos desiludidos e a \u00fanica fic\u00e7\u00e3o que seja v\u00e1lida, para adultos ou crian\u00e7as \u00e9 a fic\u00e7\u00e3o mim\u00e9tica, espelhando o pior do mundo em que o leitor ou a leitora se encontra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea estivesse preso em uma situa\u00e7\u00e3o imposs\u00edvel, em um lugar desagrad\u00e1vel, com pessoas que te quisessem mal e algu\u00e9m te oferecesse um escape tempor\u00e1rio, por que voc\u00ea n\u00e3o ia aceitar isso? E fic\u00e7\u00e3o escapista \u00e9 apenas isso: fic\u00e7\u00e3o que abre uma porta, mostra o sol l\u00e1 fora, te d\u00e1 um lugar para ir onde voc\u00ea esteja no controle, esteja com pessoas com quem voc\u00ea queira estar (e livros s\u00e3o lugares reais, n\u00e3o se enganem sobre isso); e mais importante, durante o seu escape, livros tamb\u00e9m podem te dar conhecimento sobre o mundo e o seu predicamento, te dar armas, te dar armaduras: coisas reais que voc\u00ea pode levar de volta para a sua pris\u00e3o. Habilidades, conhecimento e ferramentas que voc\u00ea pode utilizar para escapar de verdade.(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra forma de destruir o amor de uma crian\u00e7a pela leitura, claro, \u00e9 se assegurar de que n\u00e3o existam livros de nenhum tipo por perto. E n\u00e3o dar a elas nenhum lugar para que leiam estes livros. Eu tive sorte. Eu tive uma biblioteca local excelente enquanto eu cresci. Eu tive o tipo de pais que podiam ser persuadidos a me deixar na biblioteca no caminho do trabalho deles nas f\u00e9rias de ver\u00e3o, e o tipo de bibliotec\u00e1rios que n\u00e3o se importavam que um menino pequeno e desacompanhado ficasse na biblioteca das crian\u00e7as todas as manh\u00e3s e ficasse mexendo no cat\u00e1logo de cart\u00f5es, procurando por livros com fantasmas ou m\u00e1gica ou foguetes neles, procurando por vampiros ou detetives ou bruxas ou fantasias. E quando eu terminei de ler a biblioteca de crian\u00e7as eu comecei a de adultos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles eram \u00f3timos bibliotec\u00e1rios. Eles gostavam de livros e eles gostavam dos livros que estavam sendo lidos. Eles me ensinaram como pedir livros das outras bibliotecas em empr\u00e9stimo inter-bibliotecas. Eles n\u00e3o eram arrogantes em rela\u00e7\u00e3o a nada que eu lesse. Eles pareciam apenas gostar do fato de existir esse menininho de olhos arregalados que amava ler e conversariam comigo sobre os livros que eu estava lendo, achariam pra mim outros livros em uma s\u00e9rie deles, eles me ajudariam. Eles me tratavam como outro leitor \u2013 nem mais, nem menos \u2013 o que significa que eles me tratavam com respeito. Eu n\u00e3o estava acostumado a ser tratado com respeito aos oito anos de idade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas as bibliotecas tem a ver com liberdade. A liberdade de ler, a liberdade de ideias, a liberdade de comunica\u00e7\u00e3o. Elas tem a ver com educa\u00e7\u00e3o (que n\u00e3o \u00e9 um processo que termina no dia que deixamos a escola ou a universidade), com entretenimento, tem a ver com criar espa\u00e7os seguros e com o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu me preocupo que no s\u00e9culo XXI as pessoas entendam errado o que s\u00e3o bibliotecas e qual \u00e9 o prop\u00f3sito delas. Se voc\u00ea perceber uma biblioteca como estantes com livros, pode parecer antiquado e datado em um mundo no qual a maioria, mas n\u00e3o todos, os livros impressos existem digitalmente. Mas pensar assim \u00e9 errar o ponto fundamentalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que tem a ver com a natureza da informa\u00e7\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o tem valor, e a informa\u00e7\u00e3o certa tem um enorme valor. Por toda a hist\u00f3ria humana, n\u00f3s vivemos em escassez de informa\u00e7\u00e3o e ter a informa\u00e7\u00e3o desejada era sempre importante, e sempre valia alguma coisa: quando plantar sementes, onde achar as coisas, mapas e hist\u00f3rias e est\u00f3rias \u2013 eles eram sempre bons para uma refei\u00e7\u00e3o e companhia. Informa\u00e7\u00e3o era uma coisa valorosa, e aqueles que a tinham ou podiam obt\u00ea-la podiam cobrar por este servi\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos anos, nos mudamos de uma economia de escassez da informa\u00e7\u00e3o para uma dirigida por um excesso de informa\u00e7\u00e3o. De acordo com o Eric Schmidt do Google, a cada dois dias agora a ra\u00e7a humana cria tanta informa\u00e7\u00e3o quanto cri\u00e1vamos desde o in\u00edcio da civiliza\u00e7\u00e3o at\u00e9 2003. (&#8230;) O desafio se torna n\u00e3o encontrar aquela planta escassa crescendo no deserto, mas encontrar uma planta espec\u00edfica crescendo em uma floresta. Precisaremos de ajuda para navegar nesta informa\u00e7\u00e3o e achar a coisa que precisamos de verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bibliotecas s\u00e3o lugares que pessoas v\u00e3o para obter informa\u00e7\u00e3o. Livros s\u00e3o apenas a ponta do iceberg da informa\u00e7\u00e3o: eles est\u00e3o l\u00e1, e bibliotecas podem fornecer livros gratuitamente e legalmente. Crian\u00e7as est\u00e3o emprestando livros de bibliotecas hoje mais do que nunca \u2013 livros de todos os tipos: de papel e digital e em \u00e1udio. Mas as bibliotecas tamb\u00e9m s\u00e3o, por exemplo, lugares onde pessoas que n\u00e3o tem computadores, que podem n\u00e3o ter conex\u00e3o \u00e0 internet, podem ficar online sem pagar nada: o que \u00e9 imensamente importante quando a forma que voc\u00ea procura empregos, se candidata para entrevistas ou aplica para benef\u00edcios est\u00e1 cada vez mais migrando para o ambiente exclusivamente online. Bibliotec\u00e1rios podem ajudar estas pessoas a navegar neste mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu n\u00e3o acredito que todos os livros ir\u00e3o ou devam migrar para as telas: como Douglas Adams uma vez me falou, (&#8230;) um livro f\u00edsico \u00e9 como um tubar\u00e3o. Tubar\u00f5es s\u00e3o velhos: existiam tubar\u00f5es nos oceanos antes dos dinossauros. E a raz\u00e3o de ainda existirem tubar\u00f5es \u00e9 que tubar\u00f5es s\u00e3o melhores em serem tubar\u00f5es do que qualquer outra coisa que exista. Livros f\u00edsicos s\u00e3o dur\u00f5es, dif\u00edceis de destruir, resistentes \u00e0 banhos, operam a luz do sol, ficam bem na sua m\u00e3o: eles s\u00e3o bons em serem livros, e sempre existir\u00e1 um lugar para eles. (&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alfabetiza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais importante do que nunca, nesse mundo de mensagens e e-mail, um mundo de informa\u00e7\u00e3o escrita. Precisamos ler e escrever, precisamos de cidad\u00e3os globais que possam ler confortavelmente, compreender o que est\u00e3o lendo, entender as nuances e se fazer entender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As bibliotecas realmente s\u00e3o os portais para o futuro. \u00c9 t\u00e3o lament\u00e1vel que, ao redor do mundo, n\u00f3s observemos autoridades locais apropriarem-se da oportunidade de fechar bibliotecas como uma maneira f\u00e1cil de poupar dinheiro, sem perceber que eles est\u00e3o roubando do futuro para serem pagos hoje. (&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">(&#8230;) Livros s\u00e3o a forma com a qual n\u00f3s nos comunicamos com os mortos. A forma que aprendemos li\u00e7\u00f5es com aqueles que n\u00e3o est\u00e3o mais entre n\u00f3s, que a humanidade se construiu, progrediu, fez com que o conhecimento fosse incremental ao inv\u00e9s de algo que precise ser reaprendido, de novo e de novo. Existem contos que s\u00e3o mais velhos que alguns pa\u00edses, contos que sobreviveram \u00e0s culturas e aos pr\u00e9dios nos quais eles foram contados pela primeira vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acho que n\u00f3s temos responsabilidades com o futuro. Responsabilidades e obriga\u00e7\u00f5es com as crian\u00e7as, com os adultos que essas crian\u00e7as se tornar\u00e3o, com o mundo que eles habitar\u00e3o. Todos n\u00f3s \u2013 enquanto leitores, escritores, cidad\u00e3os \u2013 temos obriga\u00e7\u00f5es. Pensei em tentar explicitar algumas dessas obriga\u00e7\u00f5es aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu acredito que temos uma obriga\u00e7\u00e3o de ler por prazer, em lugares p\u00fablicos e privados. Se lermos por prazer, se outros nos verem lendo, ent\u00e3o n\u00f3s aprendemos, exercitamos nossas imagina\u00e7\u00f5es. Mostramos aos outros que ler \u00e9 uma coisa boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos a obriga\u00e7\u00e3o de apoiar bibliotecas. De usar bibliotecas, de encorajar outras pessoas a utilizarem bibliotecas, de protestar contra o fechamento de bibliotecas. Se voc\u00ea n\u00e3o valoriza bibliotecas ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o valoriza informa\u00e7\u00e3o ou cultura ou sabedoria. Voc\u00ea est\u00e1 silenciando as vozes do passado e voc\u00ea est\u00e1 prejudicando o futuro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos a obriga\u00e7\u00e3o de ler em voz alta para nossas crian\u00e7as. De ler pra elas coisas que elas gostem. De ler pra elas hist\u00f3rias das quais j\u00e1 estamos cansados. Fazer as vozes, fazer com que seja interessante e n\u00e3o parar de ler pra elas apenas porque elas j\u00e1 aprenderam a ler sozinhas. Use o tempo de leitura em voz alta para um momento de aproxima\u00e7\u00e3o, como um tempo onde n\u00e3o se fique checando o telefone, quando as distra\u00e7\u00f5es do mundo s\u00e3o postas de lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos a obriga\u00e7\u00e3o de usar a linguagem. De nos esfor\u00e7armos: descobrir o que as palavras significam e como empreg\u00e1-las, nos comunicarmos claramente, de dizer o que estamos querendo dizer. (&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s escritores (&#8230;) temos a obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o entediar nossos leitores, mas faz\u00ea-los sentir a necessidade de virar as p\u00e1ginas.(&#8230;)N\u00f3s temos a obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o pregar, n\u00e3o ensinar, n\u00e3o for\u00e7ar mensagens e morais pr\u00e9-digeridas goela abaixo em nossos leitores como p\u00e1ssaros adultos alimentando seus beb\u00eas com vermes pr\u00e9-mastigados; e n\u00f3s temos a obriga\u00e7\u00e3o de nunca, em nenhuma circunst\u00e2ncia, escrever nada para crian\u00e7as que n\u00f3s mesmos n\u00e3o gostar\u00edamos de ler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos a obriga\u00e7\u00e3o de entender e reconhecer que enquanto escritores para crian\u00e7as n\u00f3s estamos fazendo um trabalho importante, porque se n\u00f3s estragarmos isso e escrevermos livros chatos que distanciam as crian\u00e7as da leitura e de livros, n\u00f3s estaremos menosprezando o nosso pr\u00f3prio futuro e diminuindo o deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos n\u00f3s (&#8230;) temos a obriga\u00e7\u00e3o de sonhar acordado. Temos a obriga\u00e7\u00e3o de imaginar. \u00c9 f\u00e1cil fingir que ningu\u00e9m pode mudar coisa alguma, que estamos num mundo no qual a sociedade \u00e9 enorme e que o indiv\u00edduo \u00e9 menos que nada: um \u00e1tomo numa parede, um gr\u00e3o de arroz num arrozal. Mas a verdade \u00e9 que indiv\u00edduos mudam o seu pr\u00f3prio mundo de novo e de novo, indiv\u00edduos fazem o futuro e eles fazem isso porque imaginam que as coisas podem ser diferentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhe \u00e0 sua volta: eu falo s\u00e9rio. Pare por um momento e olhe em volta da sala em que voc\u00ea est\u00e1. Eu vou dizer algo t\u00e3o \u00f3bvio que a tend\u00eancia \u00e9 que seja esquecido. \u00c9 isto: que tudo o que voc\u00ea v\u00ea, incluindo as paredes, foi, em algum momento, imaginado. Algu\u00e9m decidiu que era mais f\u00e1cil sentar numa cadeira do que no ch\u00e3o e imaginou a cadeira. Algu\u00e9m tinha que imaginar uma forma que eu pudesse falar com voc\u00eas em Londres agora mesmo sem que todos fic\u00e1ssemos tomando uma chuva. Este quarto e as coisas nele, e todas as outras coisas nesse pr\u00e9dio, esta cidade, existem porque, de novo e de novo e de novo as pessoas imaginaram coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos a obriga\u00e7\u00e3o de fazer com que as coisas sejam belas. N\u00e3o de deixar o mundo mais feio do que j\u00e1 encontramos, (&#8230;) n\u00e3o de deixar nossos problemas para a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o. Temos a obriga\u00e7\u00e3o de limpar tudo o que sujamos, e n\u00e3o deixar nossas crian\u00e7as com um mundo que n\u00f3s desarrumamos(&#8230;)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos a obriga\u00e7\u00e3o de dizer aos nossos pol\u00edticos o que queremos, votar contra pol\u00edticos ou quaisquer partidos que n\u00e3o compreendem o valor da leitura na cria\u00e7\u00e3o de cidad\u00e3os decentes, que n\u00e3o querem agir para preservar e proteger o conhecimento e encorajar a alfabetiza\u00e7\u00e3o. Esta n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de partidos pol\u00edticos. Esta \u00e9 uma quest\u00e3o de humanidade em comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez perguntaram a Albert Einstein como ele poderia tornar nossas crian\u00e7as inteligentes. A resposta dele foi simples e s\u00e1bia. <b><i>\u201cSe voc\u00ea quer que crian\u00e7as sejam inteligentes\u201d, ele disse, \u201cleiam contos de fadas para elas. Se voc\u00ea quer que elas sejam mais inteligentes, leia mais contos de fadas para elas\u201d.<\/i><\/b> Ele entendeu o valor da leitura e da imagina\u00e7\u00e3o. Eu espero que possamos dar \u00e0s nossas crian\u00e7as um mundo no qual elas possam ler, e que leiam para elas, e imaginar e compreender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2022 Vers\u00e3o editada da palestra do Neil Gaiman para a Reading Agency, realizada dia 14\/10\/2013 no Barbican em Londres. A s\u00e9rie anual de palestras da Reading Agency come\u00e7ou em 2012 como uma plataforma para que escritores e pensadores compartilhassem ideias originais e desafiadoras sobre a leitura e as bibliotecas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Equipe pedag\u00f3gica aprofunda a import\u00e2ncia da leitura e o conceito de Hackschooling.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":5507,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,14,1],"tags":[35,32,37,65,22],"class_list":["post-5500","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-educacao-infantil","category-ensino-fundamental","category-sem-categoria","tag-autonomia","tag-ensino","tag-leitura","tag-textos","tag-videos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5500","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5500"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5500\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5500"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5500"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.espacocatavento.com.br\/novosite\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5500"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}